04 maio 2011

Que Dureza...



A superintendência da Polícia Federal em São Paulo vai ser assumida, na próxima semana, pelo delegado Roberto Ciciliati Troncon Filho. A nomeação marca o fim do noivado da corporação com o modelo de “Polícia Federal Republicana”, montado pelo Ex-Presidente Lula - e que representava, na verdade, submissão a sugestões de operações feitas por amigos de ministros igualmente republicanos. Troncon é tido como um linha-dura que jamais se curvou ante a pedidos pessoais de ministros da Justiça. Sua nomeação para São Paulo aguardou um mês, na Casa Civil. Troncon havia sido barrado para a direção da PF pelo Senador José Sarney (PMDB-AP). Ao ver o vocábulo “Troncon” sugerido para o cargo de Diretor-Geral do Órgão, sob Dilma, Sarney mandou recado ao atual governo petista, de que leria aquilo como “uma afronta pessoal”. Troncon levou então a superintendência de São Paulo-SP.

A superintendência de São Paulo é tida, pelos Policiais Federais, como em prol da filosofia multi-operações do ex-ministro da Justiça de Lula, Marcio Thomaz Bastos. Vejamos: o ex-superintendente da PF em SP, delegado Jaber Makul Saad, ora aposentado, trabalha desde o ano passado como consultor de inteligência para Márcio Thomaz Bastos. O sobrinho de Jaber, Delegado Federal Ricardo Saad, foi quem herdou as investigações da operação Satiagraha, antes promovidas pelo hoje deputado Protógenes Queiroz.

Mas a gestão de Dilma baixou normas rigorosas para operações da PF: operações com mais de dez agentes devem passar pelo crivo pessoal do Ministro Da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo. O modelo Dilma nada quer com o modelo Lula de PF. (lembremos: as operações da PF aumentaram quinze vezes durante o governo Lula). Pularam, por exemplo, de 16 em 2003 para 143 até agosto de 2009. De 2003 para 2010 o número de funcionários da PF pulou de 9.231 para 14.575, um crescimento de 58%. Lula botou nas ruas 1.244 operações, o que representa 25 vezes mais do que as 48 tocadas pela PF no governo Fernando Henrique Cardoso. O novo superintendente da PF em São Paulo quer uma corporação menos política – assim como Dilma.

ÓDIO SARNEY

Tido como durão e nada político, Troncon é odiado pela família Sarney por ter comandado a Operação Faktor ou Operação Boi Barrica – que acusou Fernando Sarney de fazer caixa dois para a campanha de Roseana Sarney, pela disputa do governo do Maranhão em 2006. Fernando Sarney foi indiciado por formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Neste sábado, o jornal O Estado de S. Paulo completa 638 dias sob censura em decorrência do caso investigado pelo novo superintendente da PF em SP. Desde 29 de janeiro de 2010, o Estado aguarda definição judicial sobre o processo que o impede de divulgar informações sobre a Operação Boi Barrica, pela qual a Polícia Federal investigou a atuação do empresário Fernando Sarney. A pedido do empresário, que é filho do presidente do senado, José Sarney (PMDB-AP), o jornal foi proibido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF), em julho de 2009, de noticiar fatos relativos à operação da PF.

No dia 18 de dezembro de 2009, Fernando Sarney entrou na Justiça com pedido de desistência da ação, mas o Estado não aceitou. No dia 29 de janeiro de 2010, o jornal apresentou ao TJ-DF manifestação em que sustenta sua preferência pelo prosseguimento da ação, a fim de que ela tenha seu mérito julgado.

PF MINGUADA

O novo superintendente em SP vai herdar uma PF depauperada. No Ministério da Justiça, órgão ao qual a PF é subordinada, o orçamento inicialmente previsto de R$ 4,2 bilhões para 2011, teve redução de R$ 1,5 bilhão. O corte foi anunciado em decreto de 1º de março pelo Governo Federal. A situação é ruim em todo o país. “aqui em Foz do Iguaçu, região em que mais ocorrem casos de tráfico de armas e drogas, não há mais verbas para diárias dos policiais em operações especiais. Isso aumenta consideravelmente o número de crimes no país. Veja que já há até em São Paulo o barateamento do custo do crack e da cocaína, porque quando é mais fácil passar a droga pela fronteira, ela fica mais barata. As operações da PF caíram ao zero”, denuncia ao Brasil 247 Naziazeno Florentino dos Santos Junior, diretor de seguridade social da Federação Nacional dos Policiais Federais, a FENAPEF. Em São Paulo, o orçamento para a PF em 2011 é o mesmo de 1995.

Troncon também protagonizou episódio emblemático na história da PF. A Polícia Federal divulgou em 17 de julho de 2008 três trechos da gravação da reunião que discutiu a saída dos Delegados Protógenes Queiroz, Karina Murakami Souza e Carlos Eduardo Pelegrini Magro do comando da investigação da Operação Satiagraha. Na reunião, o delegado reconheceu ter criado um problema na PF. E manifestava interesse em colaborar na continuidade das investigações, mas disse que não queria mais presidir o inquérito. A divulgação foi feita a pedido do presidente Luiz Inácio Lula Da Silva em reunião com o Ex-Ministro Da Justiça, Tarso Genro, e o então Diretor-Interino da Polícia Federal, Romero Menezes.

A gravação traz diálogo entre PROTÓGENES e ROBERTO CICILIATI TRONCON filho, então diretor de combate ao crime organizado da PF. Estabelece a gravação divulgada que PROTÓGENES quis continuar no inquérito, mas não mais presidi-lo. Pediu para deixar o comando: “Minha proposta é: eu fico até o final da operação, eu criei um problema para os meus colegas delegados, um grande problema, e para você [Troncon] também. então minha proposta é essa, permanecer minha vinculação ao seu gabinete, à sua disposição até o final do trabalho, para não ficar aquela pecha de que brasília vem fazer operação nos estados e deixa no meio do caminho. as minhas nunca ficaram e a exemplo dessa, não vai ficar, mas com um diferencial: eu não vou ficar presidindo, não pretendo presidir nenhuma investigação, mas ficar coletando dados, analisando”.

Em resposta, Troncon condiciona a permanência do delegado à conclusão do inquérito antes de ele iniciar o curso. Troncon: “Se eventualmente, dentro do desdobramento natural desse inquérito que você instalou, se você conseguir concluir antes do período de você ir para a academia, sem nenhum problema. Agora, se não conseguir dentro da melhor técnica, e isso requerer maior tempo e maior análise, aí a gente passa para um dos colegas”.

Em outro trecho da reunião, Protógenes agradece o apoio recebido dos seus superiores e faz uma autocrítica em que admite falhas na condução da operação, especialmente sobre a presença da imprensa no momento das prisões.

Protógenes: “Não preciso nem falar com relação ao Doutor Troncon, QUE É UM chefe ímpar, que me deu toda essa... eu devo praticamente 100% da execução dessa operação a dois homens de bem dessa Polícia Federal. primeiramente eu destaco o Doutor Troncon. em seguida, O Doutor Leandro [Daiello, superintendente da Polícia Federal em São Paulo] e em terceiro, como coadjuvante dos dois, eu não poderia esquecer aqui o Dr. Luiz Fernando Côrrea, a quem prezo e tenho um carinho muito grande. então ele era sabedor dessa operação e correu tudo bem. aqui hoje é uma avaliação de erros para nos corrigirmos e nos policiarmos. então houve a presença da imprensa aqui em são paulo? houve. quem falhou? O Queiroz [delegado se refere a ele mesmo]. FALHOU porque o Troncon ME depositou [confiança] e eu firmei compromisso com ele, mas falhou o meu controle”.

Em outro trecho da gravação, perguntam ao delegado se ele conseguirá concluir o relatório até sexta-feira. O delegado responde que só faltava ouvir Humberto Braz, suspeito de ter tentado subornar a Polícia Federal a mando do banqueiro Daniel Dantas. Ex-Presidente da Brasil Telecom, Braz entregou-se à PF. “se o Humberto se apresentou, acredito que não tenha óbice”, respondeu.

Fonte:
Brasil 247 / 02 de Maio de 2011 às 20h:15min. Com adaptações do Bolg A SAGA

Um comentário:

  1. Se o Senador Sarney realmente entendeu a nomeação desse policial, como ofensa pessoal e porque não sebe o conceito de democracia, ainda bem que a policia não e gerenciada por políticos.

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