15 outubro 2010

Veículos Blindados

No âmbito do serviço policial há muitas utilidades para uma viatura blindada. O primeiro é o emprego de tais carros no controle de distúrbios civis. Viaturas blindadas são empregadas para conduzir e apoiar as frações de tropa empregadas na dissolução de manifestações, bem como plataforma para o emprego de armamento não letal como lançadores de gás, balas de borracha e canhões d´água. As viaturas blindadas também são úteis no patrulhamento e no combate ao crime, tanto que, nos últimos dois anos, países como Taiwan, Malásia, Indonésia, Grã-Bretanha e Austrália vem renovando suas frotas de veículos blindados.


O crescimento das metrópoles e a favelização de parcelas da área urbana vem criando verdadeiros “santuários” para a criminalidade, onde a força policial tem cada vez mais dificuldade de patrulhar. Quando de suas incursões em favelas, os policiais tem de progredir sob intenso fogo, necessitando, portanto do apoio de veículos blindados. Há tempos vinha considerando a impropriedade dos veículos blindados que se vem adquirindo para a Polícia carioca. O presente trabalho pretende, de forma breve, expor minhas considerações acerca do que, acredito seja o melhor para a nossa polícia permanentemente engajada numa luta árdua, em um cenário tático o qual, infelizmente, só tende a agravar-se.

A idéia de dotar o BOPE e os demais Batalhões de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro de viaturas blindadas para transporte de policiais a áreas conflagradas é correta e irrepreensível, porém eu discuto se o modelo por nós adquirido seria realmente o mais adequado, quer em face das atuais necessidades, quer em face daquilo que se espera estar enfrentando em futuro próximo.

Não é interesse de este estudo execrar os gestores da segurança pública do Rio de Janeiro, até pelo reconhecimento de que, comprando os blindados eles estão fazendo algo em prol dos policiais e da sociedade; porém acredito que a crítica valha à pena, até para que, no Rio ou em outras unidades da federação, se possa aprender com tais experiências.

O desenho do carro, que está sendo adaptado para atuar em um cenário cada vez mais militarizado é inegavelmente “civil”. O carro adquirido até pode se constituir numa opção mais barata; porém, convenhamos; Às vezes o barato sai caro. Para mim está claro que deveríamos contar com dos tipos de viatura: uma blindada leve e ágil, do porte aproximado de um jipe (predominantemente para patrulhas ou eventualmente perseguição) e outra maior, esta sim destinada a – nas operações – levar uma fração de tropa equipada no interior de uma área conflagrada.

O desenho dos carros recentemente adquiridos, claramente adaptado de uma viatura de transporte de valores concebida para rodar apenas na cidade, não lhes permite uma mobilidade adequada em terrenos irregulares (mesmo os urbanos). Aparentemente o blindado não foi testado em condições severas. O veículo de transporte de valores blindado do qual ele se deriva não teria a necessidade de galgar meio-fios altos, romper barricadas ou subir ladeiras íngremes transportando um peso equivalente ao de uma dezena de policiais equipados.

h – a distância (altura) entre a carroceria e a superfície da pista de rodagem, na frente do carro;
x – distância entre a roda e a frente da carroceria, na frente do carro;
h´- distância (altura) da carroceria ao chão na traseira do carro;
x´- distância entre a roda e a traseira do carro

A partir do desenho constatamos que o carro – apelidado de “Caveirão” numa alusão ao símbolo da unidade de operações especiais da polícia carioca – terá muita dificuldade em subir um degrau, ou vencer, em altura, qualquer obstáculo dianteiro vertical. Para propósito de melhor mobilidade vê-se que a esmagadora maioria das viaturas blindadas de transporte de pessoal sobre rodas têm sua roda posicionada praticamente na extremidade da carroceria. Como exemplifica a combinação da distância x` com h`, o veículo arrastará a traseira sempre que for subir um meio fio de maior altura ou no caso de tentar galgar uma ladeira de maior inclinação (gradiente), terreno excepcionalmente comum nos morros cariocas. A mídia carioca já reportou de forma bastante jocosa, situação em que o carro blindado da polícia não teria conseguido subir uma ladeira! Pressuposto básico para uma viatura de transporte de tropa é ter mobilidade e a do nosso “novo” carro já demonstrou ser visivelmente comprometida, ou, na melhor da hipóteses, limitada

 Ouso opinar que desenho do antigo “Paladino” (foto), com sua altura relativa ao solo, posicionamento de rodas e blindagem inclinada, mesmo carecendo da torre, do conforto e de outras eventuais modificações, é ainda muito mais adequado que novo “Caveirão”

Embora o “Caveirão” conte com excelente visibilidade da área exterior, se deveria ter concebido “coberturas” para as janelas, a fim de serem abaixadas no caso de tiroteios intensos. Os vidros blindados são dimensionados para resistir ao impacto de um tiro de fuzil, porém todos sabemos que não são invulneráveis. Os criminosos sabem que podem provocar o colapso da blindagem dos vidros atingindo-os repetidamente num mesmo ponto (ou num ponto bem próximo), por isso a necessidade de contar com escudos para os vidros. Vale ressaltar que a substituição dos vidros é onerosa, principalmente levando em consideração nossos parcos orçamentos...



No caso dos vidros da posição do motorista (pára brisas e lateral), acreditamos que seja indispensável a colocação de uma tela metálica resistente à impactos de objetos. Embora os vidro sejam sabidamente blindados, para conduzir o veículo o motorista necessita que ele seja transparente. Se atingido por duas ou três pedradas (ou tijoladas) o vidro poderá ter sua translucidez comprometida e a dirigibilidade do carro será prejudicada. Um recurso alternativo simples e barato seria o de dotar o veículo de câmeras de circuito fechado de televisão (acondicionadas em abrigo blindado) em cada quadrante do carro, que permitissem uma visualização da área exterior.


Uma opção interessante para a progressão em áreas de risco consistiria em dotar o veículo de uma câmera de TV, com “zoom” e especialmente capacitada para operar em condições de baixa luminosidade, a qual ficaria afixada em um “shelter” blindado na extremidade de um braço telescópico. Uma vez na área conflagrada o veículo estenderia o braço telescópico e a Câmera permitiria fazer um preciso reconhecimento (em 360º) de toda a área circunvizinha. Uma vez que nem sempre a polícia pode coordenar o emprego da viatura blindada com o apoio de helicópteros, a partir de tal varredura visual, se poderia detectar o posicionamento dos criminosos e avaliar os melhores cursos de ação. 


Coberturas para os vidros estão bem visíveis no carro britânico HUMBER “PIG”, concebido inicialmente para uso militar e depois empregado para propósito de segurança interna por diversas polícias no mundo




A blindagem plana do “Caveirão” foi dimensionada para resistir a impacto dos fuzis calibre 7,62x51, 7,62x39, 223 Remington, mas aparentemente se desconsiderou que a criminalidade poderá vir a usar calibres mais potentes como o .306 perfurante (“trinta zero meia”) e até mesmo o .50”. Quando da seleção do carro se deveria ter atentado para a capacidade do mesmo em fazer frente ao recrudescimento das ameaças da criminalidade num futuro breve, porém previsível. Vale ressaltar que originalmente o “Caveirão” não contava com pneus à prova de bala e – diferentemente dos veículos militares de transporte de tropas – o fundo de seu casco não era resistente a projéteis ou estilhaços.


Pela limitações de mobilidade de carros como o “Caveirão” e a necessidade proteção, advogo francamente a favor de empregar veículos militares adaptados como uma solução de custo mais ainda mais baixo. A blindagem mais resistente e a mobilidade visivelmente maior tende a se constituir numa proteção mais efetiva para os policiais em operação. Diversas forças policiais do mundo inteiro optaram por adaptar modelos militares ou empregar viaturas militares compradas de “segunda mão” como as fotos demonstram. Há mesmo cidades americanas cujas polícias utilizam veículos de lagarta como o M-59 e o M-113.

Acima o veículo britânico SIMBA da GKN/Alvis, produzido localmente nas Filipinas.
Versão policial/anti-distúrbios, exportada para o Golfo Pérsico.







Uma grande quantidade de veículos britânicos ALVIS SARRACEN, descartados do exército britânico, encontrou emprego como viaturas policiais na Irlanda, península arábica e também nos Estados Unidos

Em face do risco de emprego pela criminalidade de lançadores de foguetes anti-tanque como o M-72 – recurso dos quais os criminosos dispõe e apenas por sorte não foi usado contra a polícia até hoje – a estrutura do carro, bem como seu grupo propulsor e suspensão, deve permitir a colocação de uma blindagem do tipo “gaiola” sem acarretar uma significativa degradação da performance. A referida proteção detona as granadas anti-tanque de carga oca (HEAT) antes delas poderem chegar à carroceria do carro, garantindo maiores chances de sobrevivência para o veículo e seus ocupantes.



Há diversas soluções que mereciam ser melhor estudadas antes de se buscar comprar o “Caveirão”. A necessidade de adquirir veículos para outras polícias estaduais talvez permitisse uma economia de escala que justificasse um novo projeto nacional, mais adequado que o do presente veículo. A padronização de modelos das frotas é algo difícil mas está contemplada dentre as prioridades estudadas pela SENASP. Outros Estados certamente vão necessitar adquirir carros blindados para suas polícias em futuro próximo. Países como as Filipinas e a antiga Rodésia (atual Zimbábue), com muito menos capacidade industrial que o Brasil, produzem (no caso das Filipinas) ou produziram (no caso da antiga colônia africana britânica) veículos de características muito interessantes.


Necessitando de uma grande quantidade de veículos para as Forças Armadas e a Polícia, as Filipinas produzem localmente o KÀLAKIAN




Veículos como o CROCODILE (esq.) e o PIG (acima) foram produzidos na Rodésia durante os anos 70, a partir de chassis de caminhões. Atente-se para a blindagem com boa inclinação.

A importação de veículos é uma possibilidade, embora particularmente não disponha de dados acerca dos impostos ou certificações necessárias para a eventual aquisição desses veículos importados pelo Brasil. Apenas para que se tenha uma idéia, um Alvis SARRACEN completamente reformado, de 2ª mão, nos Estados Unidos custaria cerca de US$26.000,000 (vinte seis mil dólares). Duas possibilidades de adoção seriam as viaturas sul-africanas como a CASPIR, adotadas também em larga escala pela Índia, ou as britânicas SAXON, especialmente projetadas para operar em terrenos difíceis, proporcionando à tropa uma total proteção contra armas leves e minas anti-veículo. 



Uma grande quantidade de CASSPIR foi também produzida na Índia






A solução à favor da qual advogo, consistiria em gestionar junto ao Ministério da Defesa a cessão de algumas viaturas blindadas URUTU da antiga ENGESA, ou tentar adquiri-las, de segunda-mão, junto à países latino americanos. O exército brasileiro dispõe de centenas desses carros. Caso os veículos não estejam em bom estado, a “reforma” dos mesmos poderá ser executada em parceria com as Forças Armadas a um custo menor. A idéia de optar pelo veículo da ENGESA deve-se somente às premissas de custo benefício do emprego do mesmo. Há carros igualmente bem blindados e mais leves (com dois eixos); há carros que transportam mais homens (o URUTU leva até dez soldados equipados); há outros veículos anfíbios...mas nenhum deles tão amplamente difundido no Brasil... Sinceramente, não creio que precisássemos pensar muito!?
O antigo carro nacional teria inegáveis vantagens sobre o atual “Caveirão”:
a) Blindagem resistente a impactos de armas até o calibre .50” praticamente sobre quaisquer ângulos;
b) Possibilidade de dotar-se o carro de uma torre blindada ou de escudos para o comandante;
c) Os carros já vem de fábrica com pneus blindados;
d) Extrema solidez estrutural, capaz de facilmente receber a blindagem tipo gaiola;
e) Dimensões comparáveis ao “Caveirão”
f) Mobilidade infinitamente superior (vide foto);
g) Capacidade anfíbia, a qual poderá ser muito útil em casos de calamidade pública, produzindo uma imagem bastante favorável da força policial junto à população;
h) Robustez superior do veículo;
i) Amplo “know-how” para a  repotencialização e manutenção das Forças Armadas;
j) Possibilidade de contar com ampla rede de sobressalentes e manutenção de custo baixo;
k) Possibilidade de receber ar condicionado.

No patamar dos “blindados leves” aos quais me referi inicialmente há uma grande possibilidade de escolha de carros. O custo unitário de tais veículos novos – tanto no exterior, quanto no Brasil – poderia eventualmente vir a superar o dos URUTUS de 2ª mão; mas novamente a economia de escala poderia favorecer-nos com encomendas que atendessem a vários Estados. Imagino que os “blindados leves” seriam empregados como PATAMOS, dissuadindo pela presença ostensiva enquanto pré-posicionadas em locais de risco e explorando sua velocidade e agilidade em contra-ataques limitados. Há projetos de veículos na categoria proposta desenvolvidos pela indústria nacional, como o da INBRAFILTRO.


O novo blindado leve brasileiro da INBRAFILTRO
capaz de conduzir confortavelmente 5 policiais

Poder-se-ia optar por jipes blindados como o SHORLAND (sobre chassis da Land Rover), os Jipes blindados israelenses (com chassis Jeep/Ford), ou o HUMMER americano. Tais veículos também são encontrados no mercado de “segunda-mão” e sua blindagem poderia ser recondicionada no Brasil, sem problemas.


Carros como o Shorland, da Short Brothers sobre chassis Land Rover, ou jipes blindados como os israelenses (à direita) podem ser opções válidas.

Quando se fala na adoção de material para uso militar ou policial, ninguém deve arrogar-se “dono da verdade” pois é comum que equipamentos cujo projeto apresentava características admiráveis venha a demonstrar suas fraquezas no campo, muitas vezes comprometendo quase que irremediavelmente seu emprego. Nem sempre o que funciona bem na prancheta (ou no CAD) vai comportar-se na situação crítica real da forma que o usuário gostaria ou necessita. No Iraque, os americanos estão aplicando sobre-blindagens aos seus HUMMER e caminhões, na esperança de conferir maiores chances de sobrevivência aos veículos e suas tripulações.

Confrontando-se com uma criminalidade cada vez mais ousada e bem armada e que detém recursos financeiros praticamente ilimitados, necessitamos de veículos blindados que nos permitam não somente confrontar as ameaças atuais, mas também proteger nossos policiais em face daquilo que os criminosos possam estar empregando contra eles amanhã ou depois.  

ã by Vinicius Domingues Cavalcante 2004.

VINICIUS DOMINGUES CAVALCANTE, CPP, o autor, é profissional de segurança certificado pela American Society for Industrial Security e integra a Diretoria de Segurança da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Graduando em Gestão da Segurança pela Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, detém diversos cursos na área de planejamento de segurança e segurança pessoal de executivos e autoridades. Foi instrutor convidado no Estágio de Técnicas de Abordagem da PMERJ. Colaborador atuante em publicações especializadas em segurança como as revistas PROTEGER (Editora Magnum Ltda/ SP),  SECURITY (Editora CIPA/SP) , SEGURANÇA PRIVADA (do Sindicato das Empresas de Segurança do Rio de Janeiro), SESVESP (do Sindicato das Empresas de Segurança do Estado de São Paulo), JORNAL DA SEGURANÇA (C-4 EDITORA/SP), SEGURIDAD LATINA (INTERTEC PUBLISHING/U.S.A.) e GLOBAL ENFORCEMENT REVIEW, nos portais “on-line” FIREPOWER (http://www.firepower.cjb.net), SEGURED.COM (http://www.segured.com) FORO DE SEGURIDAD (www.forodeseguridad.com). Possui artigos sobre segurança publicados no Jornal O GLOBO, bem como teve trabalhos sobre inteligência e segurança exibido na “Home Page” da ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Membro da Associação dos Técnicos de Segurança Patrimonial do Brasil , da Associação dos Diplomados em Gestão da Segurança, da International Association of Counterterrorist and Security Professionals e do Instituto de Defesa Nacional (IDEN).

4 comentários:

  1. Caramba,um blindado pode chegar até 100 kmh?. Achei interessante aquele inglês,apelidado de "PIG". Outro dia eu vi uma matéria que tinha até um trator (acho que era uma retro-escavadeira) blindado no Rio,utilizado para tirar carros,pedras e outras coisas que os marginais colocam como barreira.

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  2. olá, Vinicius gostei do seu trabalho aqui mostrado, tenho interese constante em estar cada vez mais informado quando o assunto é segurança, não tenho o conhecimento que eu gostaria de ter, mas busco aos pouco e assim monto os meus conhecimento.

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  3. Puxa, muito interessante... De verdade, um estudo realmente aplicado a necessidade da cidade quanto aos blindados, coisa que nossas autoridades deveriam fazer e não o fazem. :/
    Mas muito bom o trabalho mesmo! :D

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