05 julho 2010

Brasileiro Espião do DEA

O nome dele é, digamos, Amadeu. De março de 1997 até há dias ele trabalhou como espião. Contratado, a US$ 3 mil por mês, pela Drug Enforcement Administration (DEA), agência norte-americana de combate ao narcotráfico. Amadeu, um brasileiro do Sul, infiltrou-se em organizações de tráfico ligadas a cartéis da Colômbia e Bolívia. Andou pelos dois países, pelo Suriname, por oito Estados do Brasil, e ainda está infiltrado: os traficantes não sabem que tratavam, e ainda tratam, com um espião da DEA. Por esse motivo, seu rosto aqui é uma sombra e seu nome é, digamos, Amadeu.

Ele conta como e quando foi recrutado pelos norte-americanos. Revela que, por um bom tempo, trabalhou só com a DEA, sem que a Polícia Federal sequer soubesse de sua existência. Aliás, quase foi preso pela PF quando operava pela DEA no interior de São Paulo e garante, e ele não é o primeiro. Diz ainda, que em ações conjuntas com a Polícia Federal do Brasil, os norte-americanos costumam pagar contas: hospedagens, diárias, missões, etc., etc. Quando não contas maiores, para as quais a polícia brasileira não tem recursos imediatos. Eles pagam, mas cobram, como lembrou ao espião o agente Tony Mendonça, o "controlador” de Amadeu na DEA:

“Nós pagamos a conta, o dinheiro é nosso, você deve satisfações a nós e a mais ninguém.”
Isso, dito num dia em que, ao passar pela Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal, em Brasília, Tony, sargento-fuzileiro dos EUA, encontrou um relatório de Amadeu na mesa do policial João Gretzitz.

"SUMIU"

Amadeu resolveu abrir a boca. Não é o primeiro que se indispõe com a DEA por conta de problemas - como diríamos? - trabalhistas. Ele garante que os irmãos do Norte não pagam o que prometem, e devem. Amadeu não é o primeiro.

Há um ano, CartaCapital entrevistou longamente outro espião que mantinha pendências - como diríamos? - trabalhistas com senhores da embaixada norte-americana. O espião de há um ano, no dia de confirmar seu depoimento no Ministério Público (desejo por ele mesmo enunciado), "sumiu".

Amadeu manteve-se firme. Pede que lhe escondam o rosto, mas entregou, além da entrevista, documentos: recibos de câmbio no Citibank da embaixada norte-americana; contas de telefone com fax enviados à DEA e à DRE; recibos dos Correios com material remetido para seu endereço comercial pela embaixada dos Estados Unidos; recibo de passagem mandado por integrante da PF; relatórios da infiltração em organizações do narcotráfico repassados regularmente à DEA e, tempos adiante, à Polícia Federal...

SIM, EXISTE.

Amadeu dispõe, ao mesmo tempo, dos seus relatórios e de processos - com temas e personagens correlatos - tocados pela Polícia Federal. CartaCapital, feita a entrevista - com a presença de respeitável testemunha -, checou os documentos entregues por Amadeu. São verdadeiros. Checou a própria existência de, digamos, Amadeu como espião. Existência como tal confirmada por vários do ramo, aí incluídos figuras e um figurão da Polícia Federal.
CartaCapital, para dirimir eventuais incertezas quanto ao profundo significado da ação de Amadeu sob soldo da DEA dentro do território brasileiro, buscou quem, por obrigação, deve conhecer a legislação e ter respostas a possíveis dúvidas. O procurador da República no Distrito Federal, Luiz Francisco Fernandes de Souza, não mediu palavras e tem uma certeza:
“É um acinte à soberania nacional, é vergonhoso, é ilegal. O governo deveria dar meios à sua polícia e não permitir a burla às leis e a afronta à soberania com seu próprio incentivo ou omissão.”

O DINHEIRO

O delegado-chefe da Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE), Getúlio Bezerra dos Santos, ressalva que, por não conhecer os fatos, fala apenas "doutrinariamente". Começa por afirmar que "todos os órgãos de polícia do mundo têm verbas para informantes", mas, percebida a extensão das ações e seus significados, concorda:

“A legislação tem de definir melhor os papéis... Nós não legislamos!... Com o espírito de querer servir e as cobranças, ficamos expostos, em cima de uma lâmina... O ideal seria que a gente não precisasse do dinheiro deles...”

Deles, no caso, são os norte-americanos. Mais precisamente a DEA, uma das duas dezenas de agências dos EUA envolvidas em dois combates: um, contra o narcotráfico, em todo o mundo. Outro, umbilicalmente ligado ao primeiro, por dezenas e dezenas de bilhões de dólares que o orçamento - desde que tudo notificado, provado e aprovado pelo Congresso norte-americano - destina à luta contra as drogas.

ACORDOS

Entenda-se: maior ou menor orçamento significa mais ou menos empregos para os que trabalham em tais organizações. A DEA, em 1998, tinha um orçamento de US$ 15 bilhões. A CIA, de US$ 26,7 bilhões. O FBI, de US$ 3,2 bilhões. No Brasil, o orçamento da Polícia Federal em 1999 foi de R$ 1,030 bilhão. Ou US$ 572 milhões.

Não por acaso, acordos e memorandos de combate ao narcotráfico assinados por Brasil e EUA prevêem, ano a ano, o desembolso de recursos dos norte-americanos para ações da Polícia Federal. É preciso uma pequena fortuna, de imediato, para alugar um avião? Não é possível à PF, por força da Lei de Licitação, bancar tal aluguel num estalar de dedos? Não há problema. Os gringos bancam. Estada prolongada num hotel de luxo, no rastro de traficantes? Eles ajudam. E por aí vamos.

À pagina 33, o delegado Getúlio Bezerra, da DRE, garante que quando a DEA paga uma conta há "ressarcimentos". Não é o que dizem graduados integrantes da própria Polícia Federal, não é no que crê o procurador Luiz Francisco Fernandes.

A CIA

Há um ano, nas edições 97 e 98, CartaCapital revelava, com nomes, fatos e fotos, a ação sem freios e crescente da DEA e da CIA no Brasil. Ação que passava, e ainda passa, por largos setores da Polícia Federal, uma organização ainda dividida em grupos e, por estas razões todas e mais algumas, ligada ao enredo de quedas dos últimos ministros da Justiça.
Polícia Federal que, se tem quadros de grande experiência e competência, tem também enormes problemas. Um deles, talvez o maior, o de não ter recursos suficientes para operar e, assim, ver-se obrigada a hospedar, se não o contrário, agentes estrangeiros que paguem algumas de suas contas. Certamente, não de graça.
Polícia que teve em meados dos anos 80 seu Centro de Dados Operacionais, ex-CDO, hoje Soip, pago, tijolo por tijolo, assim como automóveis, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Leia-se, CIA. CDO, hoje Soip, também citado por Amadeu em entrevista nas páginas seguintes e que funciona em regime de "informações compartilhadas" com os norte-americanos. Polícia que, em alguns de seus braços, vive com a DEA uma relação que o procurador Luiz Francisco define como "promíscua".



A ENTREVISTA


Carta Capital: Quando você foi recrutado para trabalhar?

Amadeu: Em março de 97, pela DEA, Um era agente texano, o Mark, e o outro, de nome Aubren - esse, depois, fiquei sabendo que não era agente operacional e sim tradutor da embaixada. O agente da Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE), da Polícia Federal, que me foi apresentado, bem depois, foi o João Gretzitz, de Brasília. O Aubren tinha um sobrenome um tanto estranho. (O sobrenome é Sue.) O Gretzitz me disse que ele é do Suriname, americano naturalizado.

CC: Você recebia dinheiro? Onde?

A: Recebia. Muitas vezes na própria DEA, na embaixada americana em Brasília.

CC: Quem o pagava?

A: Há normas naquele país, eles levam a contabilidade deles muito a sério, e eu acho que é por isso que sobra dinheiro para que eles façam tanta firula. Na hora de pagar sempre são dois agentes, os dois contam o dinheiro, me é passado e eu tenho de contar na frente deles.

CC: Isso se dá dentro da embaixada?

A: Algumas vezes, sim. A DEA tem salas completamente independentes do serviço do corpo diplomático, nos fundos da embaixada. As salas têm códigos de segurança, que só o pessoal autorizado acessa. Adentra-se, mas não pode ficar circulando.

CC: Tem algum banco dentro da embaixada?

A: Uma agência do Citibank. Cheguei a receber em dólares e trocar nesse banco. Eu recebia o salário e os custos de viagem, os custos operacionais eram livres. Tenho comprovante de câmbio nesta agência.

CC: Você recebia quanto de salário?

A: Três mil dólares mensais, depois que nós reconversamos. A proposta inicial era que eu faria esse trabalho de informação não em tempo integral, mas uma coisa a mais. Só que do Estado onde eu moro tendo de trabalhar e fazer uma coisa a mais no Amazonas, não dá. Então ficou acertado que eu receberia uma quantia xis, eu tinha pedido US$ 5 mil, aí houve a contraproposta de US$ 3 mil de início para que a gente acertasse, livre de despesas.

CC: Você recebeu durante esses três anos?

A: Em dólar, verdinho; eles atrasaram no final. A nota é linda, a cor do dólar é fascinante. Me lembro de duas vezes que recebi da DEA, em dólar - US$ 3.339 -, e troquei no Citibank lá mesmo, dentro da embaixada dos Estados Unidos, Uma vez, no dia 22 de janeiro de 1999. Veja o recibo. Quem me pagou neste dia foram os agentes Tony Mendonça e David Felix. Como disse, são sempre dois na hora de pagar.

CC: São 19 agências norte-americanas que operam no Brasil, é isso?

A: Eram 16, 17, e o FBI recebeu autorização para instalação de um escritório. A DEA, pelo acordo que fizemos, tirou fotografias minhas de diversos ângulos, tem as minhas impressões digitais em papéis, etc. Lá nós não temos nome nem foto, nada. Nós temos um número.

CC: Um ex-agente nos procurou no ano passado e gravou uma entrevista. Disse que há uma espécie de fichário na parte debaixo das paredes, o que revela muita gente trabalhando para a DEA, como você. É verdade?

A: Tenho conhecimento de que há mais gente, mas é completamente proibido o contato. Eles tomam esse tipo de cuidado, muito a rigor, o que, inclusive pra gente, não deixa de ser bom.

CC: Cada um tem o seu fichário?

A: Tem. Cada um tem o seu fichário.Vi muitos. Suponho que tem muita gente trabalhando para eles. Mera suposição. Se eu dissesse alguma coisa nesse sentido, seria especulação. O que eu posso dizer pra você é que talvez eu seja um privilegiado. Porque eu fui recrutado, além dos americanos, por um cara que trabalhava pra eles. Então nós já somos dois que se conhecem.

CC: Seu último contato com a DEA foi ...

A: Há um mês, com o agente Tony Mendonça. Liguei para comunicar o meu novo número de telefone. E, em março, ele tinha ido novamente na minha cidade, ele e o David Felix. Para me pagar com quase cinco meses de atraso, desta vez recebi lá. Eles pagaram, mas não era a quantia que a gente esperava. Aliás, como eles sempre fazem.

CC: E é por isso que você resolveu falar?

A: Olha... Olha a minha intenção, em primeiro lugar, é dar ciência de que existe muita gente trabalhando no combate ao narcotráfico, pessoas muito envolvidas e de uma forma muito mais aprofundada e com responsabilidades e riscos muito maiores que a própria instituição policial, do que o Estado deveria ter. E é claro que eu não quero ficar famoso com esse tipo de coisas; por isso, não quero mostrar o rosto. Essa é uma fama que você tem no máximo em 24 horas. Depois…

CC: Para quem você trabalhava? Para a PF, para a DEA? Como é o jogo entre elas?

A: Eu sempre fui da DEA. Contratado e pago pela DEA, certo? No início das operações, nós atuávamos sozinhos, eu e os agentes da DEA, nada de Polícia Federal...

CC: A Polícia Federal alega que sempre é informada das operações.

A: Conversa mole.

CC: Em que região do País você atuava?

A: Toda a região Norte. No Pará, Manaus, Boa Vista, Macapá, Porto Velho. Sem o conhecimento da PF, na maioria das vezes.

CC: Como você pode afirmar isso?

A: É simples. Quando eu perguntava: "Por que a gente não trabalha em conjunto com a Polícia Federal?" Eles me respondiam: "Você confia no pessoal da Polícia Federal?" Ficava muito difícil, realmente, a gente sendo brasileiro e conhecendo...

CC: Mas a Polícia Federal tem gente legal e muito competente…

A: Depois que fiz parte desse serviço, mudei certos conceitos que tinha. Vi que era um tanto exagerado, mas se vi que tem muita gente boa lá dentro, deu pra ver também que tem muito pilantra, e tem corrupto também.

CC: Você tem uma origem policial? Por que procuraram você?

A: Através de um velho amigo, um dos maiores traficantes que conheci, na área de químicos, inclusive pra cartéis da Colômbia e da Bolívia. Nós fizemos uma amizade e ele foi preso. Ficou aqui no Carandiru quase dez anos. Eu nunca usei drogas e nunca trafiquei drogas, mesmo porque sou casado e pai de três filhos e vejo isso com horror, e mais ainda do que os outros porque vejo de perto, conheço essa realidade e sei a estrutura e o tamanho que é o tráfico hoje no Brasil e no mundo. Conheco bastante o sistema internacional de tráfico, da Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia, Suriname, Europa, EUA e África.

CC: Quer dizer, você conhece as rotas, você não conhece todo mundo, evidentemente?

A: Não, não conheço todo mundo, é claro, mas tenho as razões sociais de várias empresas internacionais que me foram enviadas. No jogo que montamos, o homem das exportações seria eu.

CC: Como é isso?

A: Eu tinha uma empresa, ela já existia muito antes disso. Essa empresa serviu de justificativa. Com dinheiro da DEA montei, instruído por eles, um escritório. Todos os móveis, fax, mesa, ar-condicionado, sofá de couro, cadeira, tudo foi comprado e pago com o dinheiro da DEA. Eu precisava de uma fachada, se eu ia entrar num cartel grande de drogas, como o cartel colombiano, para que eu me apresentasse, eu teria de me apresentar como? Não sou químico, nem piloto de avião. Não iria me plantar dentro do mato, me envolvendo com a guerrilha colombiana, as Farcs. Então, me apresentei sempre como homem das exportações, era um trabalho de alto nível, com acesso a tudo e a todos..

CC: E as operações DEA/Polícia Federal. Você mandava relatórios para a DEA?

A: Fiz, e tenho, mais de 200 folhas, à mão. Quase sempre pelo fax, do meu escritório. Tenho contas telefônicas que provam isso. Por elas você vê que eu mandava para a embaixada dos Estados Unidos, em Brasília e, às vezes, não no começo, para a DRE. É só conferir os números dos telefones.

CC: Quantas vezes você trabalhou com a DEA e a PF?

A: Muitas. Cheguei a ficar 30 dias fora de casa, a serviço exclusivamente da DEA. Em Manaus, se formou um grupo que eu tinha muito acesso, muita penetração, como continuo tendo, e então eu trabalhei cinco meses quase que direto em Manaus. Tudo pago pela DEA. Cinco meses de salário, hotéis, passagens e restaurantes - eu tinha de tirar recibo, notas fiscais de tudo.

CC: Essas operações, eventualmente, envolviam a Polícia Federal?

A: Perfeito. Nas vezes que estive junto, a DEA pagava a conta. Todas as viagens em que eu estive com agentes da DRE, tinha um agente da DEA comigo, e era ele quem pagava as diárias, as despesas, o hotel. Depois de uma certa reportagem que a revista CartaCapital fez (edições 97, 98), mudou um pouco a forma de se conduzir. Esfriou! Tomaram certas cautelas, maquiaram de certa forma.

CC: Nos dê exemplos...

A: O agente que na época viajou comigo para Manaus foi o João Gretzitz, ele é da DRE da Polícia Federal, e era o Tony Mendonça, da DEA, quem pagava as contas.

CC: Você está dizendo que operava eventualmente em conjunto com a Polícia Federal, mas que a DEA era quem comandava?

A: A DEA pagava, e os relatórios que eu fiz foram entregues à DEA. Eu conversava com o Pat Healy, o chefe da DEA, depois que o Mark retornou aos EUA, e com o Tony Mendonça, que, eu soube por ele mesmo, é um angolano naturalizado americano, ex- sargento dos fuzileiros.

CC: Quando foi o contato com o Tony?

A: Por meados de 1998. Tinha chegado, então, um novo agente, e o Aubren me contatou novamente na minha cidade. Era o José Antonio Mendonça, chamado de Tony Mendonça. Em São Paulo, o chefe é o Jay Fitz Patrick. Em Brasília, que é onde eu freqüentava com muito mais assiduidade, além do chefe, Pat Healy, do tradutor Aubren, da secretária por nome Lurdes, tinha um agente que trabalha exclusivamente na área de químicos, Fred Bocanument, o agente Mark Knight, e o porto-riquenho, que depois veio para trabalhar comigo, junto com o Tony, David Felix.

CC: Eles o tratavam como informante?

A: Isso foi motivo de uma reunião. A condição de informante supõe uma posição ínfima. Você fica plantado no seu local de origem e o que acontece por ali, você informa. E recebe apenas por isso. Eu me locomovi por mais de oito Estados e três países, infiltrado em cartéis internacionais do tráfego de drogas, então isso não era apenas um serviço de informação comum, não valia apenas isso.

CC: Você era um agente?

A: Espião mesmo, é esse o nome. Eu estive até mesmo na cidade de Letícia, na Colômbia, para me encontrar com chefes do narcotráfico naquele país e naquela região. Me encontrei com o Chucho Navarro e o Miguel Fuentes, que inclusive era primo do Amado Carrilho Fuentes, o chefe no México, o Pablo Escobar de lá.

CC: O Porras Ardilla estava lá ainda?

A: Não. Me hospedei no Amazonas, daquela cidade, e foi então que percebi que o muro traseiro daquele hotel - nós fomos levados a uma sala luxuosa lá do fundo do hotel -, depois de algum tempo, a parede começou a se mover. O muro era mole, eu tomei um susto… de repente, aquela parede andando, quase corri do lugar. Aí abriu aquela parede, uma trepadeira no muro, e tinha um outro cidadão comigo, um colombiano por nome de Joselito, o responsável pelo meu contato e pela conversa que eu teria, porque eu seria o homem das exportações. Pois o muro se moveu e, numa Mercedes branca, apareceram o Chucho Navarro e o Miguel Fuentes.

CC: Você se infiltraria nos grupos que exportam a droga?

A: Perfeitamente. A droga viria basicamente da Colômbia. Algumas operações de base eram feitas do Peru para a Colômbia, para o refino naquele país. Naquela época, derrubaram um avião que era de um grupo que opera em Manaus, inclusive, matando dois brasileiros com 500 quilos de droga no avião.

CC: Quando isso?

A: Creio que no final de 1998. Um coronel da Força Aérea Peruana comunicava quando os caças levantavam para a interceptação. Ele era acertado com o cartel.

CC: Teve alguma operação, você presente, que a DEA pagou barco, avião?

A: Sei que eles pagam, os agentes comentam o tempo todo, mas comigo só teve uma operação dessas, e que não se completou. Ela foi montada por quase seis meses de exaustivo trabalho. O fornecedor chama-se José Patiño, vulgo Tio. Ele está na Colômbia, solto. Ele deu uma corridinha lá porque abriram um processo muito violento contra ele, sabe sobre o quê? Enriquecimento ilícito (risos). Junto com o grupo do Tio, nós tínhamos o Nelson Garcia, o Joselito, o Chucho Navarro e o Miguel Fuentes na Colômbia, ele o braço direito do El Gordo, que era irmão de um ex-ministro em Bogotá, preso há pouco tempo. O Johnny - Jota - e o Gustavo eram do Cartel de Medellín. Eles financiavam o acontecimento em Barranco Mina e, também, na pista do Caruru, que são as duas pistas controladas pelas Farcs da Colômbia e dão esse tipo de cobertura na fronteira.

CC: As Farcs têm andado por ali?

A: Têm. Eu estive lá, e há coisa de seis meses teve uma incursão de guerrilheiros da Farc em território nacional para a compra de armamento, munição e alimento. Eles atravessam a média de 20 a 30 quilômetros do Rio Negro saindo na base do braço direito do Rio Jari e o Rio Purus, que é chamado de Lago dos Tucunarés Vermelhos. Há poucos meses houve quatro pessoas mortas à bala, brasileiros mortos em território brasileiro.

CC: Você mandava o relatório só para a DEA ou para a Polícia Federal também?

A: Em princípio, era só para a DEA, e a alegação era que a Polícia Federal não podia me conhecer, por questão de segurança minha. Depois até entendi, quando conheci a Superintendência do Amazonas e o seu imperador, o delegado Mauro Espósito. Ele coordena aquilo ali com braço-de-ferro, é um bom policial, é um cara que joga duro, mas mora num dos bairros mais ricos e elegantes da cidade de Manaus, e foi acusado de alguma coisa interna, há uns dois anos, e responde a processo.

CC: Ele joga com quem nessa história?

A: Nunca me apresentei a esse cidadão, mas todos sabem que ele joga com a DEA. Aliás, quase todos jogam com a DEA. Na sede em Brasília, no Amazonas, em Porto Velho, no Mato Grosso… Há também o pessoal que trabalha com o ex-Centro de Dados Operacionais, o CDO, agora chamado Soip, que é uma operação com a CIA.

CC: Como você sabe?

A: Por contatos com os agentes e, depois, numa época em que eu estava querendo parar de trabalhar com a DEA, e fui sondado. Por um agente de nome Geraldo, um brasileiro, e foi falado por telefone com um delegado por nome de Lawrence, que era o chefe do CDO em Brasília. Pela mesma pessoa que me recrutou para a DEA.

CC: Como era essa relação, no cotidiano? Você viajou muito junto com a Polícia Federal e a DEA? Para quem seguiam os relatórios?

A: Nas primeiras operações, a Polícia Federal não tinha conhecimento da minha presença no trabalho. Eu trabalhava exclusivamente com a DEA, os agentes andavam para cima e para baixo e controlavam o meu trabalho em qualquer região sem nenhum tipo de presença ou informe à PF.

CC: Agentes da DEA?

A: Agentes da DEA, sem o acompanhamento de nenhum agente brasileiro.

CC: Podiam comunicar as operações à PF sem você saber…

A: Não estavam comunicando porque eu sabia. Inclusive, numa certa operação, no interior de São Paulo, quase fui preso pela Polícia Federal, que não tinha conhecimento da minha presença nem do que se fazia ali. Saí de lá pouco antes e se tivesse ficado teria sido preso. Quem comandou essa operação foi o agente João Gretzitz e, depois disso, passei a mandar relatórios para ele, na DRE em Brasília. Ele foi quem me disse: "Você escapou por pouco, nós não sabíamos de nada nessa operação".

CC: Então você começou a mandar relatórios para a Polícia Federal?

A: Um pra DEA e um pra PF. Na DEA, para o Tony Mendonça, o David Felix, e, quando eles não estavam, para o agente Mark ou o chefe Healy. Na DRE, comecei a passar para o João Gretzitz, que hoje está na embaixada brasileira na Colômbia.

CC: Você enviou quantos relatórios à PF?

A: Mais de 20. Em 98/99, até que deu problema. Teve a sacudida daquela reportagem da CartaCapital, o Tony trouxe um agente da DRE para trabalhar em conjunto. Ele disse que iríamos trabalhar em conjunto, então pensei que seria um relatório para a DEA e um para a Polícia Federal. Enviei um relatório para a DEA e outro para a DRE. Fui chamado a atenção pelo agente Tony Mendonça, que, visitando a DRE, viu o meu relatório sobre a mesa do Gretzitz.

CC: Em que termos?

A: Nestes termos: "Somos nós que pagamos tudo, somos nós que financiamos as operações de combate ao tráfico aqui, e você trabalha diretamente com a gente, e nós é que te pagamos, e pagamos todas as suas despesas e outrens, então você tem de aguardar a nossa ordem e não pode violar os nossos códigos. Você não foi autorizado a enviar nada para a Polícia Federal". Ele ficou muito irritado, disse que eu o estava "apunhalando pelas costas".

CC: De quais operações você participou em conjunto com a DEA, Polícia Federal?

A: O maior alvo em que trabalhei, fazendo levantamento de toda a conexão, foi em cima do Leonardo Dias Mendonça, que é um cidadão que mexia com materiais de garimpo no sul do Pará, com sede na cidade de Tucumã, ali naquela região de Santarém, de Altamira, e que montou, se não o maior, até hoje um dos maiores esquemas de narcotráfico internacional no Brasil e de lavagem de dinheiro no tráfico. Fala-se, e não sei dizer se é verdadeiro ou não, numa fortuna em torno de 500 milhões. Porque, entre os aviões, as fazendas, claro que sempre associado, o grupo dele é muito grande, muito bem ramificado.

CC: Exemplos.

A: Os pilotos, os fornecedores colombianos e sua associação, Dési Bouterse, Dino Bouterse, ex-presidente e filho do ditador do Suriname. Ele colocava de 1.500 a 2 mil quilos de cocaína no Suriname, para exportação para a Europa e os Estados Unidos.

CC: Ele recebia de qual país?

A: Da Colômbia, do José Patiño, o Tio, que era um grande parceiro, e de um chefe da guerrilha do Caruru, chamado Nego.

CC: O que é a guerrilha do Caruru?

A: A guerrilha é a Farc. O chefe da guerrilha do Barranco do Caruru é chamado de Nilo, que, inclusive, continua fazendo as operações de droga com avião colombiano, com 300, 400 quilos por mês aqui.

CC: E esse Leonardo está aonde?

A: Foi interceptado pela CPI, encontra-se recolhido sobre diversas acusações, que não vão conseguir provar. Pela "eficiência do trabalho" então prestado em cima dele.

CC: Ele está preso onde?

A: Se não me engano, em Brasília, ou em Goiás, que é o Estado natal dele. Diversas pessoas do grupo dele já saíram. O Pedro Misael, que é o dono da Gaivota, empresa de táxi aéreo, que presta assistência a todos os aviões do narcotráfico, inclusive suporte para roubo de aviões.

CC: Esse cara está...

A: Não, ele foi preso e saiu com 20 dias. E a CPI o interceptou o Leonardo, que a Polícia Federal vem trabalhando em cima dele há mais de três anos, inclusive com o Espósito, lá do Amazonas, a superintendência de Belém, entrou Porto Velho, entrou Brasília, entrou todo mundo em cima do Leonardo, e não conseguiram pegar.

CC: Você falou numa grande operação que não acabou…

A: Era uma operação que nós montamos e íamos fazer, os agentes da DEA disseram que aquilo era uma operação controlada, de entrega controlada. Monta-se toda a estrutura, do começo ao fim, para recepção da droga em determinado país, onde é feita a apreensão. A legislação norte-americana permite que se faça esse tipo de trabalho, dentro dos Estados Unidos, assim como outro tipo…

CC: A infiltração?

A: Vamos falar de modo grosseiro: deixar traficar acompanhado. Às vezes, eles deixam passar a pessoa com 50 quilos de cocaína porque sabem que lá atrás vêm 500. No Brasil, infiltração não é permitida. Como não era permitida antes, pelo que sei, nem a entrega controlada. Isso, não sei como está. E um dia houve uma reunião entre a DRE e a DEA.

CC: Como, para quê?

A: Uma reunião em Brasília. Da DEA quem participou foi o chefe, Pat Healy, o então recém-chegado David Felix, agente da DEA, o agente Tony Mendonça, e a reunião foi feita na sala do Marco Antonio Cavalero, à época chefe da DRE, com a minha presença. Também presentes o João Gretzitz, e o agente Lima, que é da DRE também. O dr. Cavalero, então, cobrou uma postura do chefe da DEA, disse o seguinte: aceitava que se fizesse essa passagem aqui pelo Brasil, mas que prendesse lá nos Estados Unidos e que se prestasse satisfação do destino dessa droga. O chefe da DEA ficou meio sensibilizado. Disse que era lógico que ele daria uma satisfação, até porque ele não iria deixar distribuir 600 quilos de cocaína dentro dos Estados Unidos.

CC: Como seria a operação?

A: O avião decolaria da Colômbia com 600 quilos, traria pra mim no meu Estado, na minha região, onde disponho de uma estrutura de pista, em uma fazenda, e eu receberia. Plantados em lugar estratégico, os agentes da DRE, da Polícia Federal, filmando e fotografando tudo e, se fosse possível, teria um agente junto comigo na pista. Eu receberia essa mercadoria, os colombianos decolariam. Só que, antes da operação se completar, gente da mesma Polícia Federal capturou outra remessa de 60 quilos que vinha na frente e espantou todos.

CC: Todos, quem?

A: Eu receberia os 600 quilos da droga. Quando recebesse, eu passaria a droga, que ficaria sob a custódia da Polícia Federal. Nesse meio tempo viria um avião da DEA, dos Estados Unidos, pegaria a droga aqui no Brasil e colocaria em um produto que eu iria mandar normalmente. A exportação do produto iria acontecer. O produto, o que seria? Açúcar, arroz, qualquer coisa que pudesse colocar a droga no meio.

CC: O que aconteceu?

A: Nesse meio tempo, um grupo brasileiro precisava fazer dinheiro rápido, um caixa, e pegaram, à parte, 60 quilos de cocaína, gente do grupo do mesmo Leonardo. Eles pegaram 60 quilos de cocaína do Tio, desse José Patiño, na Colômbia, para entregar para outro estrangeiro aqui no Recife. Como sou muito próximo deles, muito amigo realmente, passaram pra mim essa informação e eu comuniquei à DEA e à DRE. Disse o nome do barco, Aguinaldo Costa, que iria transportar, de que forma seria o transporte dos 60 quilos, e recomendei: deixa passar. Todo mundo achou que seria melhor deixar passar e pegar no Recife, se fosse o caso, e a operação dos 600 quilos continuaria. Surpreendentemente, três ou quatro dias depois do comunicado, vem a Polícia Federal, intercepta o barco no rio, apreende 60 quilos e desmonta todo o serviço. Porque, aí, espantou todo mundo. Pegou os dois brasileiros que estavam aguardando os 60 quilos em um hotel, em Belém do Pará. O colombiano Arnulfo Parra, vulgo Peludo, que vinha transportando no barco Aguinaldo Costa. O Peludo está preso, em Belém, até hoje. Mas esta operação espantou todo mundo que estava na Grande Operação, a dos 600 quilos que viriam de lá da Colômbia num avião.

CC: Que hotel do Pará?

A: Hotel Sagres.

CC: Você ganharia o quê? Um prêmio?

A: Sempre foi combinado entre eu e a Drug Enforcement Administration, a DEA, que, se houvesse apreensão, prisão, seqüestro de bens, etc., seria feito um apanhado geral do volume, do que foi feito, do peso, da importância, e Washington faria uma avaliação, e eu receberia um prêmio por isso. Uma utopia nos três anos que trabalhei. Nunca consegui receber um centavo de prêmio.

CC: Mas também não foi feita a grande operação, como você disse.

A: Mas digamos que, no mínimo, eles prenderam um colombiano, um barco, três brasileiros transportando 60 quilos de droga, em cima de um serviço meu. Então já seria um termômetro. Quando questionei os agentes americanos a respeito desse prêmio, eles disseram o seguinte: "Não, esse serviço não nos interessava, quem derrubou foi o DPF, o DPF que paga". Cobrei da chefia da DRE. Tinha assumido o dr. Getúlio, estava lá também o recém-chegado delegado Paulo de Tarso, por sinal, muito bom delegado.

CC: Você foi cobrá-los? E aí?

A: Ficou um jogo de empurra. Eles recomendaram que eu pedisse um fax para aquele agente, Gretzitz, reconhecendo a minha participação na DRE, e eles encaminhariam o processo aos americanos solicitando a paga do prêmio. O agente mandou fax falando em meu favor, segundo a chefia da DRE, mas falando, também, muito mal dos agentes americanos. Aí a DRE se recusou a passar o fax para a DEA, que iria reagir. Seria criado um problema entre os dois parceiros.

CC: Você chegou a fazer esse tipo de operação mais de uma vez?

A: Sim, sim... Mas com droga mesmo foi apenas uma vez.

CC: Em alguma dessas operações tem fotos sua?

A: Não. Tem foto minha com agente da DRE, com delegado federal da DRE, em momentos de descontração, de lazer.

CC: O ex-ministro da Justiça Renan Calheiros foi ao Congresso e disse que desconhecia este tipo de operação…

A: Talvez ele desconhecesse o fato, o que até não me surpreende, mesmo porque parece que os ministros da Justiça sempre desconhecem esses fatos. Cada um pode dizer aquilo que bem entender, mas até me surpreende, porque, desconhecer, acho que é até pior do que conhecer. Como é que o ministro da Justiça desconhece o trabalho de inteligência e segurança nacional, o que se passa nesta área? E sendo algo desse tamanho.

CC: O que você sabe sobre o CDO, agora Soip?

A: Pouco. Eles trabalham com a CIA, são muito fechados, muito fechados. Você, realmente, só tem e fica sabendo de coisas quando está lá dentro e participa com eles.

CC: De fato, o que te leva a abrir a boca? O não pagamento do prometido?

A: Eu nunca soneguei nem omiti uma informação sequer que fosse. Nem à DEA nem à Polícia Federal de Brasília, no tempo que trabalhamos juntos. Nenhum deles pode me acusar de qualquer desvio de conduta moral, profissional ou ética. Deixava a minha esposa com os meus três filhos, ia me infiltrar em cartéis internacionais de droga, coisa que eles não faziam, a gente é que tinha de fazer. Corri, e corro, muitos riscos, e acho que não fui tratado com o devido respeito. Não sou traficante, nunca trafiquei drogas, não sou usuário de drogas, não sou alcoólatra, sempre trabalhei com muita firmeza de caráter e não tive o retorno devido.

CC: Como eram seus relatórios?

A: Nomes, telefones, casas, hábitos alimentares…

CC: Você nos dá cópias desses relatórios?

A: Perfeitamente, estão aqui, tome. Onde almoçavam, quem comia, nome da namorada, da esposa, da amante, do cachorro. Levantava a vida do cara. Com 90, 120 dias, eles já tinham dados suficientes para prosseguir a sua investigação sozinhos.

CC: A DEA?

A: Antes a DEA, depois as duas, a DEA e a DRE. A DEA sempre apertando e a DRE concordando, porque o dinheiro é da DEA. A DEA dizia: "Vamos dar uma paradinha, porque estão gastando muito. Temos de prestar contas". A gente parava e, meses depois, o cara caía. Na operação do Leonardo, o Tony Mendonça chegou a dizer que Washington estava reclamando porque já tínhamos gasto US$ 25 mil. Ora, numa operação daquele tamanho, com gente da DEA vigiando cada passo meu? Prendiam gente que eu havia levantado. Isso mais de uma vez e nunca recebi prêmio algum.

CC: Eles são seguros com dinheiro?

A: No início do ano passado, fui entrevistado por um grupo de Washington, que veio chefiado por um senhor de nome Glenn e sobrenome Loclom, alguma coisa assim. Vieram fazer inspetoria, checar os gastos da DEA. Pegaram diversas folhas de recebimento, me perguntaram se aquela era a minha assinatura, se eu recebia aquilo, etc. e tal. Eu passei por essa bateria feita por americanos, mas a minha parte, pelos menos dos 60 quilos, não recebi.

CC: Que significa quanto dinheiro?

A: Nos Estados Unidos, é US$ 15 mil o quilo; na Espanha, US$ 25 mil; em nível de Holanda, US$ 30 mil; Alemanha, US$ 50 mil a US$ 60 mil; Tóquio, uns US$ 80 mil; no Oriente Médio, uns US$ 250 mil o quilo, eu diria.

CC: E no Brasil?

A: Uns US$ 6 mil, US$ 7 mil, US$ 8 mil, depende. Tem época que tem muita e época que não tem nada. A colombiana é mais superestimada do que a boliviana. A boliviana já vem com o devido batismo, com 70% de impureza e isso não permite que o distribuidor acrescente, e assim um quilo pode virar dois, no máximo. A colombiana, uma boa pasta base, permite que você faça quatro por um, dependendo do químico.

CC: Uma última pergunta. Você imagina o que pode ser a sua vida daqui por diante?

A: Trago por princípio duas coisas; eu sou, graças a Deus, muito bem-nascido. Numa família constituída, conheci todos os meus avós, dois bisavós, pai, mãe. Tive o privilégio de nascer em uma família boa, de ter um bom estudo, apesar de desde muito jovem ser meio inquieto e, de repente, foi por isso que vim parar neste tipo de serviço.

CC: Mas, e os riscos agora?

A: Eu penso muito antes de fazer determinada coisa. Um homem deve se preocupar quando o que ele faz é desonesto e o que ele está falando é mentira. Não é o meu caso: falo olhando nos olhos. Eu não temo. O temor não é que as instituições oficiais conheçam, e sim, de repente, o conhecimento da minha identidade por outros traficantes. Aliás, muito poucos estão presos, mais de 80% estão nas ruas, estão soltos. E estes conhecem a gente...

CC: No Brasil, qual, ou quais as cadeias de comando no tráfico?

A: Uma das coisas mais engraçadas que a gente pode observar, e isso, inclusive, às vezes, a responsabilidade se atribui à imprensa e à mídia, é essa concentração de energia, em cima do Marcinho VP, do Fernandinho Beira-Mar. Coitadinhos do Marcinho VP e do Fernandinho Beira-Mar. Você sabe o que é uma Ferrari e um Fusca? Os fuscas são o Fernandinho Beira-Mar e o Marcinho VP, perto de pessoas que realmente comandam o narcotráfico.

CC: Em que nível?

A: Alto, altíssimo. Empresários muito poderosos, com muito dinheiro, empresas de factoring que servem para lavagem de dinheiro, fazendeiros e agropecuaristas - uma excelente fonte de lavagem de dinheiro - e, junto com isso, já em uma escala mais baixa, o envolvimento, de conhecimento notório, de oficiais das polícias militares, de policiais, seja Polícia Militar, sejam delegados da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal, que está muito apodrecida, principalmente na minha região, no Brasil inteiro.

CC: Seu nome, qual é?

A: Amadeu. Serve?

Fonte: Carta Capital


Nota da Mari:

As opiniões divergem em relação à legalidade e à finalidade deste tipo de ação. Mas a verdade é que não é só na ficção que essas coisas acontecem. Mas é bem legal ter a prova de sua veracidade.

2 comentários:

  1. Eu já passei por isto tudo nos anos 70. E pelo que vejo a situação continua igual.
    Só acrescento que muito trabalhei com o Dr. Mauro Sposito e digo que ele é um grande policial, honesto e sempre disposto a sacrificar a sua vida familiar pelos seus ideais. A ele muito tenho que agradecer-lhe já que fui pego no meio duma trama de corrupção na PF e ele ajudou-me a provar a minha lealdade. Ele, o Dr. Mario Cassiano Dutra, o Dr. Paulo Lacerda são profissionais de primeira e imagino que na atualidade deve ter muitos mas de igual padrão.
    Desde 1980 deixei de ter contato com a DEA mais sempre fiquei com saudades de aquela época. Mesmo hoje com 56 anos não duvidaria em ajudar a PF na sua dura luta.

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