05 julho 2010

FBI da Treinamento Papiloscópico à PF


No dia 21 de junho, teve início o Curso de Perícia Papiloscópica/Papiloscopia ministrado por uma equipe de especialistas do FBI, nas instalações do Instituto Nacional de Identificação. Na abertura, o Diretor do INI, PPF Marcos Elias, fez questão de dar as boas vindas à toda equipe e colocou a estrutura do INI à disposição dos instrutores.

O curso, com duração de 4 dias (horário integral), contou com uma parte teórica realizada no auditório do Instituto e outra prática, que usou como apoio a copa do INI e a quadra coberta da DIREF.

Um farto material didático foi trazido pela equipe. Foram distribuídos, no 1º dia, uma apostila com material impresso, um folder do local de trabalho da equipe, um CD com material em mídia, canetas, pasta com caderno de anotações e uma lupa para confronto papiloscópico.


O curso contou, em um primeiro momento, com uma palestra do Sr. Charles Smith (Chuck) sobre classificação de impressões digitais e sua classificação primária em acordo com o sistema adotado pelos norte-americanos (Sistema Henry). Esse sistema de classificação é um pouco diferente do adotado no Brasil e nos demais países de origem latina (Sistema Vucetich). São alguns exemplos dessas diferenças: as denominações de presilha ulnar ou radial para as presilhas externa e interna do Sistema Vucetich. Num contexto geral, as regras são muito parecidas para as classificações nos dois sistemas em relação à determinação da região déltica, núcleo dos datilogramas e vários outros aspectos técnicos. Foram observadas, porém, algumas diferenças nas regras de contagem de linhas, principalmente com relação à determinação do núcleo e à linha de Galton.

Em outro momento o Sr “Chuck” continuou suas explanações sobre sistemas de classificação decadactilar, onde afirmou que estatisticamente 94% das presilhas levantadas em local de crime são do tipo ulnar (externa – correlação com mão direita). Abordou também as características do arco e suas classificações em simples (abaulado) e em tenda (angular, apresilhado).

Na seqüência foi abordado o tipo Verticilo e as diferenças nominais de classificação ficaram mais evidentes (simples, de presilha com bolso central, de presilha dupla, acidental e exceções). Após a parte teórica, foram efetuados exercícios práticos de classificação de algumas fichas decadactilares.

No segundo dia (22/06), foi tratado ainda pelo Sr. Chuck o tema “comparação de impressões digitais”. Na metodologia adotada, o professor trouxe jogos (7 erros) para demonstrar que mesmo “coisas” que parecem iguais podem ter marcantes diferenças. Isso faz com que os cuidados do observador sejam redobrados nos casos de comparações de impressões digitais. Elementos caracterizadores e seu grau de importância foram discutidos entre participantes e professor. O FBI adota, atualmente, três níveis de detalhes para a análise de impressões digitais (denominada análise ACE-V):

- Análise ACE-V de nível UM: relacionado ao tipo do padrão e classificação, cicatrizes e cristas incipientes;

- Análise ACE-V de nível DOIS: pontos característicos, pontos, bifurcações e cristas finais;

- Análise ACE-V de nível TRÊS: poros, bordas, dobras secundárias, interrupção das cristas;

Outro ponto discutido foi a inexistência nos Estados Unidos de um número preestabelecido de pontos característicos para se determinar que dois datilogramas são correspondentes.

Outro palestrante, o Sr. Stevens falou sobre os métodos adotados pelo FBI na coleta das impressões digitais. Foram apresentados os materiais para coleta de impressões digitais e palmares (basicamente tinta e microadesão), embora nos EUA mais de 90% das coletas sejam realizadas utilizando-se o live scan. O suporte de microadesão para coleta de impressões palmares mostrou-se bastante interessante pelo seu tamanho e facilidade no uso. Na técnica, eles procuram envolver as laterais das mãos e dos dedos pela superfície de adesão, em seguida é retirado e coberto por uma película plástica protetora.

Logo após, foi feito um treinamento prático em coleta de impressões papilares obedecendo as técnicas adotadas pelo FBI (mesa de coleta) com farto material de uso da polícia americana sendo distribuído. No terceiro dia (23/06), pela manhã, os Srs. David Kice e Douglas Seccombe fizeram uma palestra sobre gerenciamento em local de crime. Destacaram que equipes com 8 integrantes atendem os crimes de repercussão federal e em alguns estados americanos - como citado pelo Sr David que atua no Novo México - eles atuam nas reservas indígenas e respondem por todo tipo de crimes naquela região. Foram apresentados, também, os passos adotados nos procedimentos de local de crime, onde todas as etapas são registradas por anotações, croquis e fotografias. Todos os vestígios são devidamente acondicionados e encaminhados para outros grupos de especialistas que procederão às revelações dos fragmentos de impressões papilares. Bastante ênfase foi dada à relevância do uso das técnicas fotográficas para o registro de todo o material e o que mais for pertinente. Citaram que em uma cena de crime, têm o costume de fotografar até mesmo as pessoas que se aglomeram ao redor.

Foram demonstradas pelo Sr. David, à tarde, as etapas de revelação dos vestígios no Laboratório Central de Perícias do FBI. As técnicas adotadas são exatamente as mesmas em uso na Polícia Federal brasileira. Após o intervalo foram citados os produtos utilizados nas revelações e o método de manuseio dos mesmos. Na seqüência, todos realizaram testes práticos no galpão da DIREF e utilizaram produtos para revelação como cianoacrilato e ninidrina observando as técnicas do FBI.



Na volta à sala o Sr. Eric Carpenter mostrou alguns casos que envolvem desastres em massa e que tiveram a participação da equipe. O caso principal e mais recente para eles foi o evento do furacão Katrina onde houve uma grande destruição na cidade de New Orleans (Louisiana). Citou também o caso do tsunami na Indonésia no final de 2004 onde o FBI mandou uma equipe de papiloscopistas para auxiliar na identificação das vítimas fatais. O Sr Eric apresentou também um Power Point sobre técnicas de coleta necropapiloscópica em cadáveres desidratados indicando a fervura das mãos (por 10 segundos) e assim reidratando as cristas papilares a ponto de conseguir uma boa coleta. Sugestão, considerada interessante pela chefe do SEP-AP/INI, Luciene Marques, que aproveitou um momento, ao final do terceiro dia, para apresentar o trabalho desenvolvido no caso do acidente aéreo do vôo AF 447, em maio de 2009. O que resultou em elogios da equipe do FBI.

O Sr. David Simpson iniciou o quarto dia (24/06) falando sobre tipos e formas de utilização dos diversos pós para revelação e pincéis apropriados. Explicou o uso correto das fitas de decalque e dos suportes disponíveis. Como novidade, apresentou o ACCUTRANS que é um equipamento que produz uma massa já catalisada pra registrar, através de um molde, impressões digitais modeladas localizadas em superfícies específicas (como massa de vidraceiro, áreas muito deformadas como moedas e outras). Trata-se de uma técnica similar àquela em que é usado o Microsil.

Com relação aos suportes, o FBI utiliza cartões onde são anotados todos os registros possíveis para identificar quem procedeu ao levantamento, localização, data, e outras características adicionais que protejam a integridade daquele vestígio questionado.

Mais uma vez o grupo realizou diversas experiências com pós, fitas, levantadores plásticos e o ACCUTRANS, no galpão da DIREF.

Logo após, foram apresentados casos em que criminosos tentaram burlar o sistema de identificação de impressões digitais nos EUA. Foram casos intencionais de mutilações e troca de pele das falanges distais, mas que foram detectados pelos especialistas.



Pela tarde foram abordados os reagentes típicos para proteína, como o Amido Black. Falou-se também do reagente de pequenas partículas (para superfícies úmidas de um automóvel, por exemplo). Na seqüência os participantes foram para o estacionamento da DSG onde puderam testar os reagentes de pequenas partículas bem como o Amido Black.

O treinamento foi encerrado em clima de cordialidade e foram realizadas discussões sobre a carreira do especialista em impressões digitais no FBI. Os integrantes do FBI demonstraram grande interesse na troca de informações com a Polícia Federal brasileira. Os profissionais de ambas instituições avaliaram a experiência como muito válida. Foi um momento para aprender alguns novos detalhes e procedimentos sobre o trabalho em papiloscopia para alguns, uma revisão das técnicas para outros, e ainda uma troca de experiência que permitiu concluir que o trabalho que hoje realizamos está em excelente nível em relação à outras instituições de ponta no mundo.

Fonte: SAOP

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