01 junho 2010

Depoimento - nº 1


Mulheres na PF

Depois de pouco mais de 4 meses em Brasília, treinando na Academia Nacional de Polícia, descansei por aproximadamente 1 mês antes de tomar posse na minha primeira lotação, Corumbá/MS, fronteira com a Bolívia. Chegando à cidade, fui até a Delegacia para pegar algumas coordenadas, como onde me hospedar, onde almoçar, lugares bons e ruins, lugares onde você não deve ir, informações básicas para quem está chegando a um lugar novo. No início (quase um ano...) me hospedei no hotel da dona Virgínia, uma senhora muito simpática, que faz uma saltenha muito gostosa (se for a Corumbá, experimente).

A maioria dos colegas “morava” nesse hotel, todos de fora, longe dos pais, esposas, maridos, filhos, dos namorados, namoradas, tendo que administrar a saudade (inclusive eu). Muitos, às vezes, não tem como levar a família. Quando eu falava que eu iria morar sozinha em Corumbá, ouvi muitas pessoas dizendo que se fossem elas não iriam, que eu estava indo para um lugar perigoso e muitas outras coisas que entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Não podia desistir depois de tanto me empenhar para estar ali, não me arrependo nem por um segundo de ter ido para lá, apesar da saudade e das dificuldades no início.

Bom, voltando ao meu primeiro dia de trabalho como uma Agente de Polícia Federal em uma cidade que para mim ainda era um mistério, confesso que fiquei um pouco apreensiva. À noite, “fomos para a estrada” (com meu repelente, nunca se esqueça dele), eu e outros agentes para fazer fiscalização nos ônibus com destino a Campo Grande, atrás de um flagrante de drogas, de estrangeiros irregulares no território nacional ou qualquer outra coisa. Havia uma agente de Campo Grande em missão em Corumbá e foi ela que foi me explicando, ao longo dos dias, como era o trabalho na fronteira, inclusive nesse primeiro dia!!!Ainda bem que ela estava lá porque ainda não revelei um detalhe: quando cheguei a Corumbá, eu era a única policial (mulher) lotada naquela delegacia, apenas duas mulheres trabalhavam lá. Ainda bem que no decorrer dos meses a Delegacia foi sendo “povoada” por outras mulheres, agentes e escrivãs, que foram chegando. Da porta da Delegacia para dentro, você passa a ser um “homem de polícia”, você vai aprendendo a viver em um ambiente predominantemente masculino, ouve coisas e passa por situações engraçadas. Às vezes, os colegas (homens) ficam com vergonha de falar alguma coisa na sua frente, assuntos de trabalho, aí temos que lembrá-los “sou um homem de polícia”, mas com o tempo eles também se acostumam a trabalhar com a gente.

Conforme os dias foram passando fui pegando o jeito do trabalho, fui me familiarizando com a rotina da delegacia, com as ocorrências mais comuns, no caso de Corumbá, tráfico de entorpecentes (cocaína vinda da Bolívia), mas dependendo da lotação a incidência das ocorrências muda. Você prende homens e mulheres traficando, que na hora da prisão estão com seus filhos e você tem que entregá-los ao Conselho Tutelar; você prende pessoas que transportam entorpecente no estômago e não conseguem expelir a droga, precisam ser operadas e tem que fazer a escolta delas no hospital até a alta; prende mulheres grávidas, pessoas com idade avançada, pessoas acima de qualquer suspeita. Você também pode trabalhar com o registro de estrangeiros ou no passaporte, fazer vistorias em embarcações, ou em transportadoras, como eu já fiz (hoje trabalho no Núcleo de Operações) e também vai participar de mega operações.

Não citei aqui nem dez por cento das atividades que você pode exercer no departamento, estou contando sobre a minha experiência nesses quase 4 anos e meio. Quando você trabalha em Delegacias com efetivo menor aprende a fazer de tudo um pouco, é uma boa escola, principalmente na fronteira.

Trabalhar como policial é saber que você tem deveres e responsabilidades como em qualquer profissão, que vai passar por momentos bons, ruins, por situações de difíceis, vai fazer o que gosta, às vezes o que não gosta muito ou o que não se identifica e vai sentir orgulho quando fizer seu trabalho bem feito ou realizar uma prisão que você sabe que tinha que ser cumprida ou quando der um flagrante em uma situação, ás vezes, inesperada; é ter a consciência de que a sua vida vai mudar e pode ser para melhor se você gostar do que faz. Há espaço para homens, mulheres, cada um com as suas habilidades e apesar das diferenças, aprendemos a agir com a firmeza ou a delicadeza que as situações pedem


2 comentários:

  1. Conheço essas pernas...
    rs rs rs
    Até assustei...

    A mulherada chegou pra ficar, mesmo!
    Já é...

    Parabéns pelo post, Mari!
    Muita força!

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  2. Rsrsrsrsrs, quando li esse depoimento me lembrei de vc, por isso a foto que faz alusão ao seu blog.

    O preconceito será calado pela eficiência.
    E assim seja!

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